O Senhor é o meu pastor

O Senhor é o meu pastor

Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso

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Série “O Senhor é o meu pastor”

O Salmo 23 nos dá um maravilhoso exemplo do cuidado e proteção de Deus em imagens que demandam a imaginação. Mas para a mente contemporânea, o pano de fundo dessa imagem pode ser desconhecido. A imagem do pastor é na verdade uma metáfora para a realeza no antigo Oriente Próximo. Assim, para Davi dizer: “O Senhor é meu pastor”, implica mais do que uma linda metáfora pastoral; ele está dizendo: “O Senhor é meu Rei Pastor”. Portanto, Davi canta, neste salmo, a respeito do Rei divino que o guia e sustenta, e isso é visto inicialmente no versículo 2. Usando a metáfora pastoral, Davi observa o que Deus faz para ele: “Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso”. Ao olharmos atentamente para a linguagem deste versículo, fica claro que o cuidado de Deus por seu povo é extenso e abrangente.

No hebraico, o texto literalmente diz: “Nos campos de grama, ele me faz deitar; para as águas tranquilas, ele me guia”. Na paisagem semiárida da antiga Palestina, pastagens não eram abundantes. Os pastores teriam que guiar seus rebanhos para os lugares com grama suficiente para suas ovelhas. O pastor precisava saber para onde ir, o melhor caminho a percorrer e o ritmo em que deveria conduzir o rebanho. Provavelmente haveria terreno seco e difícil para atravessar, assim como incontáveis ​​perigos de feras e ladrões ao longo do caminho.

Cristo como o Bom Pastor cuida de nós ao longo do caminho, sustentando-nos a cada passo, em cada estação.

Essa realidade ressalta a grandeza de Deus vista neste verso. A frase “campos de grama” destaca a abundante provisão de Deus. A palavra traduzida como “campos” significa lugares de pastagem, e sugere algo como prados verdes. A adição de “grama” (traduzido como “verdejantes” na ARA) sublinha ainda mais a abundância da disposição. A palavra muitas vezes se refere à exuberante e abundante grama da primavera após a estação chuvosa ter regado a terra (Dt 32. 2; 2Sm 23. 4). Portanto, a frase transmite a imagem de campos de grama fresca e abundante. Depois de uma longa e cansativa jornada, não poderia haver melhor destino imaginável. O texto também revela a centralidade das ações de Deus. A linguagem emprega verbos causativos: “ele me faz repousar”. O Rei Pastor está soberanamente guiando Davi a essa abundância e dando-lhe um lugar para habitar. Essa ideia de morada se liga ao tema geral de “refúgio” no Saltério, que também está presente no restante do salmo (23.5–6). Assim, Deus provê um lugar seguro para que Davi receba a provisão que ele precisa desesperadamente.

Mas a descrição de Davi sobre a provisão do Senhor não está terminada. A declaração paralela nesse versículo produz outra imagem do cuidado de Deus por seu povo. David literalmente diz: “leva-me para junto das águas de descanso.” O fornecimento de água é essencial para a vida, especialmente para um rebanho em uma terra seca e desafiadora. Um lugar de águas calmas (isto é, não de águas impetuosas) seria o cenário ideal para o pastor dar de beber e lavar as ovelhas, mas também era um lugar onde ele podia limpar e curar as feridas que as ovelhas tivessem sofrido durante a tumultuada jornada. Notavelmente, a linguagem de Deus guiando Davi nesse versículo é encontrada em outras partes do Antigo Testamento (Êx 15.13; Sl 1.3; Is 40.11; 49.10) e, nesse versículo, ele ressalta a escolta protetora do Senhor ao levar seu servo para “águas de descanso”. Esta frase é muitas vezes traduzida como águas “mansas” ou “tranquilas”, destacando a calma das águas. Enquanto essa é uma maneira perfeitamente boa de interpretar este verso, é importante notar que a palavra traduzida “descanso” é na verdade um substantivo em hebraico e é a última palavra na frase “águas de descanso”. Isto implica que “descanso” é na verdade o cenário para as águas e o local em que são encontradas. No Antigo Testamento, a palavra para “descanso”, muitas vezes refere-se a Canaã como um lugar de descanso para Israel (Dt 12.9; 1Rs 8.56; Is 11.10) e à morada de Deus (Sl 95. 11; 132. 8, 14; Is 66. 1). Isso sugere que o próprio Senhor é o lugar de “descanso” à vista do Salmo 23.2, e o fim do salmo (v. 6) confirma essa ideia. Então, o definitivo lugar de descanso para o povo de Deus é o próprio Deus.

Esse verso no Salmo 23 apresenta ao povo de Deus a maravilha da provisão abundante (material e espiritual) que temos em seu Filho, o Bom Pastor. Quando oramos: “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. (Mt 6.11), baseia-se na realidade de que Jesus, nosso rei soberano, nos guia através desta vida, proporcionando-nos tudo de que precisamos para cada dia e para a vida eterna em si. Tudo o que precisamos até o momento presente veio de Sua mão (vv. 31-34), e Ele continuará a prover para nós até o dia em que ele nos introduzir na provisão eterna de Seu descanso. Cristo, como o Bom Pastor, cuida de nós ao longo do caminho sustentando-nos a cada passo, em cada estação. E quando “passamos pelas águas” da morte, Cristo estará conosco (Is 43.2), e Ele nos guiará para as abundantes pastagens, para a “Terra do Emanuel”.

Por: Michael G. McKelvey. © Ligonier Ministries. Website: ligonier.org. Traduzido com permissão. Fonte: He Makes Me Lie Down in Green Pastures; He Leads Me beside Still Waters.

Original: Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Tradução: Paulo Reiss Junior. Revisão: Filipe Castelo Branco.

Michael G. McKelvey

Dr. Michael G. McKelvey é professor de Antigo Testamento no Reformed Theological Seminary, em Jackson, Mississippi, e ministro ordenado da Igreja Presbiteriana na América. Ele é o autor de “Moses, David and the High Kingship of Yahweh”.

Pare de pular de igreja em igreja

Pare de pular de igreja em igreja

11 problemas com os poligrejados

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Imagine a seguinte situação: no sábado um crente frequenta o ministério jovem de uma igreja por considerá-lo mais ativo. No domingo pela manhã, ele participa da EBD de outra igreja, pois acha seu ensino mais profundo. No culto da noite, ele vai a uma terceira igreja, pois crê que ela segue o princípio regulador do culto mais fielmente. Durante a semana assiste à séries de pregações no YouTube do pregador com quem ele mais se identifica teologicamente, lamentando não poder frequentar sua igreja, por ser em outro estado. Assim vive um “poligrejado”. Frequenta várias igrejas, mas não se compromete com nenhuma.

Implicações

A princípio, essa prática não parece ser um problema, afinal, melhor ser um “poligrejado” do que um “desigrejado”, correto? Creio que não. Vamos pensar sobre alguns princípios bíblicos que são quebrados ao frequentar mais de uma igreja:

1. Servir a igreja e não “consumi-la” – o problema dessa prática é a visão consumista da igreja. A pessoa frequenta a igreja por aquilo que ela pode lhe oferecer e não com a motivação de servir e manifestar o evangelho (Fp 2.1-11). Assim monta um “combo” com o melhor de cada igreja pensando apenas em si mesma. A motivação deve ser o amor que nos leva a servir, e não a consumir (Mc 10.45, 1 Co 12-13, Ef 4.1-16).

2. Amor ao próximo – se a pessoa não está comprometida com um local específico, não consegue cultivar relacionamentos profundos dentro da igreja, mas apenas superficiais. Amar alguém é mais do que ter conversas esporádicas, mas sim um envolvimento sacrificial na vida do outro, e isso exige constância (1 Jo 3.16).

3. Manifestar as imagens bíblicas para igreja – não estar comprometido com um grupo específico de crentes, mas pular de igreja em igreja, impede a pessoa de manifestar imagens bíblicas como o “Corpo de Cristo” (um braço serve apenas um corpo – 1 Co 12), “Família de Deus” (a família se relaciona em um local específico – Ef 3.14-15), “Pedras Vivas que formam um Templo” (as pedras precisam estar juntas para formar o edifício, a casa, o templo – 1 Pe 2.5).

4. Servir com o dom que Deus lhe deu – (1 Co 12-14) – segundo o texto de 1 Co 12.7, o dom é dado pelo Espírito visando ao bem comum, ou seja, o que for melhor para um grupo específico. Servir em várias igrejas implicará em, cedo ou tarde, deixar uma das igrejas na mão. É como tentar manter dois empregos no mesmo turno.

5. Comunhão na Ceia – (1 Co 10.17) – a Ceia do Senhor é uma refeição em que manifestamos comunhão com Deus, por meio do sacrifício de Cristo, e comunhão uns com os outros. Se não há comprometimento com um grupo, a participação na Ceia não revela a verdade da prática, pois a comunhão com os outros não é profunda e verdadeira.

6. Pastoreio – (1 Pe 5.2) – caso não haja comprometimento com uma igreja local, os pastores e líderes não saberão por quem eles são responsáveis, e por quem deverão prestar conta. Parafraseando o ditado: “ovelha de dois pastores morre por falta de pastoreio”.

7. Submissão aos líderes – (Hb 13.7,17) – quando nos comprometemos com uma igreja local, sabemos quem são nossos líderes e a quem devemos nos submeter. Participando de várias igrejas, na prática, não nos submetemos a ninguém. Em um momento ou outro o “poligrejado” vai acabar deixando um líder de uma igreja na mão para servir o líder da outra. Além de ser tentado a se submeter à liderança que for mais conveniente, esvaziando o conceito de submissão.

8. Submissão à disciplina eclesiástica – (Mt 16.19, 18.15-20, 1 Co 5) – estar comprometido e submisso a uma igreja local também nos submete à disciplina da igreja. Qual das igrejas disciplinará o “poligrejado”? Infelizmente alguns optam por frequentar várias igrejas justamente para não estar debaixo da disciplina de nenhuma. Apronta em uma igreja, e foge para outra.

9. Discipulado – (Mt 28.19-20) – fazer discípulos implica dedicação de tempo e envolvimento. Participar de várias igrejas limita a profundidade dos relacionamentos e por isso, limita o discipulado.

10. Manifestar o evangelho – (Jo 17.20-21, Ef 3.10) – relacionamentos profundos manifestam o evangelho. Relacionamentos improváveis que se tornam possíveis por causa do evangelho, exaltam o evangelho. Já falamos que se envolver com várias igrejas dificulta relacionamentos profundos, afetando assim a expressão do evangelho pela comunhão da igreja.

11. Manifestar a santidade de Deus – (Ap 20.15) – pertencer a uma lista de membros de uma igreja local ilustra ao mundo que existe uma separação entre quem é povo de Deus e quem não é. Obviamente não quero dizer que todos os que pertencem ao rol de membros de uma igreja são verdadeiramente povo de Deus, mas, apesar das suas limitações, a lista de membresia é uma ilustração do livro da vida. Quem participa de várias igrejas, não tendo o nome em nenhuma lista de membros, deixa de proclamar essa verdade.

Obviamente, reconhecemos que há espaço para interação com irmãos de outras igrejas locais, como intercâmbios e congressos. Isso é saudável e também manifesta a glória de Deus! Tudo isso, porém, com equilíbrio, não afetando os princípios bíblicos para a igreja.

Precisamos ser humildes e nos comprometermos com uma igreja local, com seus pontos fortes e fracos; e, cumprindo nosso papel como membros, contribuirmos para o seu crescimento, à medida em que nós mesmos crescemos, juntos com os irmãos, até alcançarmos a maturidade, a medida da plenitude de Cristo, para a glória de Deus (Ef 4.1-16)!

Por: Ricardo Gonçalves Libaneo. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Original: Pare de pular de igreja em igreja: 11 problemas com os poligrejados.

Ricardo Gonçalves Libaneo

Ricardo Gonçalves Libaneo é pastor na Primeira Igreja Batista de Atibaia, SP. Casado com a Camila, e tem três filhos: Laila, Isabella e Gustavo. Fez o Mestrado em Ministérios no Seminário Bíblico Palavra da Vida. Formado em Educação Física pela Fundação de Ensino Superior de Bragança Paulista (FESB).